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Quarta-feira, Março 30, 2005 Mulva? Coletivas de imprensa são eventos absolutamente abominados pela minha pessoa. Quase nunca se fala algo de útil, e a maioria dos jornalistas está lá para comer, fofocar e ganhar jabá. Mas, ossos do ofício, de vez em quando eu tenho que frequentar esses lugares. E lá estava eu, perdida como sempre no meio do monte de bloquinhos de anotação e contando os segundos para ir embora, quando me vejo ser cutucada. Me viro para encotrar uma senhora muy simpática, que me abraça como se eu fosse um soldado voltando para casa após anos na guerra: "Tati! Quanto tempo! Como você está? E a faculdade? Já se formou?" Repasso todos os meus arquivos mentais tentando identificar a criatura na minha frente enquanto, com um sorriso amarelo, vou respondendo da maneira mais sintética possível: "tudo bem, me formei, vai indo". A tortura dura ainda mais alguns minutos, até que a mulher se lembra que tem que falar com não-sei-quem e se despede com dois beijinhos no rosto: "Tchau, Tati!". À minha constrangida pessoa, resta dizer: "Tchau, ...". Juro que por um segundo eu pensei em falar "Mulva". Ps1: se você não entendeu, faça um favor a si mesmo e vá assistir a Seinfeld Ps2: aquele "bastante alegre" vai ficar ali do lado eternamente. Ou pelo menos até eu lembrar a senha para mudar o bichinho.
assim falou Tatoca às 4:01 PM Quarta-feira, Março 23, 2005 Como manter um regime Cheguei em casa às 10 da noite, vindo do trabalho, com a nítida sensação de que meu estômago estava colado nas costas, tamanha era minha fome. Fui jogando minhas coisas na sala e de lá mesmo gritei um "oi" para a família... convivência social nunca foi meu forte, e o instinto de sobrevivência proveniente da fome falou mais alto. A última coisa que eu tinha comido era o almoço, num momento tão distante e longínquo que já nem me lembrava da sensação de comer. Abri a porta da cozinha com uma vontade esfomeada e foi então que dei de cara com uma parente do Kafka a poucos metros de distância. Em uma atitude mais do que óbvia, eu saí correndo de volta para sala, gritando deseperadamente em plenos pulmões: "uma barataaaaaaa", enquanto o nojento artrópode sumia pela porta da lavanderia. A visão do bicho repugnante e o pavor de outro encontro inesperado me fizeram mudar de idéia e ir para cama mais cedo. Acordei no outro dia com o estômago roncando.
assim falou Tatoca às 2:18 PM Terça-feira, Março 15, 2005 Dois patinhos na lagoa, la, la, la, la A comemoração na Cantina foi deliciosa.Tanto pela boa comida quanto pela companhia agradabilíssima de amigos muito queridos. Só faltou tocar mais música italiana no lugar dos pops bregas. Valeu. Me diverti muito. Adorei todas as ligações, emails, beijos, abraços e recados de familiares e de amigos que me desejaram tudo que se pode desejar para alguém querido que faz aniversário. Mas o "parabéns" mais animado e gostoso, aquele que me fez ficar com os olhos cheios de lágrimas de alegria, o abraço mais apertado e aproveitado veio da dona Victoria e do seu Carlo. Não me levem a mal. Amo todos os meus amigos, meu namorado, meus pais e parentes. Mas para os meus avós não tem concorrência.
assim falou Tatoca às 10:36 AM Quinta-feira, Fevereiro 10, 2005 A volta da que não foi Sim, sei que é absolutamente vergonhoso o abandono desse blog por essa que vos escreve. Poderia inventar trilhões de justificativas para tanto. Mas a verdade é que enjoei profundamente desse template e ando sem tempo e nem inspiração para elaborar um novo. Mas preciso escrever. Nunca imaginei que sentiria tanta saudades desse blog. Vou ver se consigo fazer um template simples provisório, apenas para me livrar do mal-estar que esse template anda me causando (frescura, eu sei, mas esse template me travou), e prometo voltar com força total. Sobrevivi bravamente ao carnaval, de longe o feriado mais odiado pela minha pessoa. Ainda bem que tenho meus cds do Strokes para esses momentos difíceis da vida. Caspirilo virou definitivamente história. E em um mês vi 11 filmes no cinema. Ando bastante atarefada, tenho dormido pouco e as crises existenciais são muitas. Mas estou bastante feliz. Ah, sim... meu inferno astral começa amanhã. Run for your life! E aproveitando que meu aniversário está chegando: ![]()
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Aceito presentes e doações! Para finalizar esse post mea-culpa, um fato digníssimo de nota: eu tenho, sim, uma Mafalda! E ela é linda! Agradecimentos eternos ao Damasceno, que me trouxe a bonequinha lá da terra dos hermanos.
assim falou Tatoca às 9:56 AM Segunda-feira, Janeiro 10, 2005 Enquanto isso, na biblioteca... - Profissão? Quem queria saber era a bibliotecária mal-humorada (pleunasmo?) que fazia o meu cadastro no maravilhoso mundo dos livros circulantes. Com o telefone apoiado no ombro, ela apenas deslocou um pouco o bocal para me fazer a pergunta, enquanto copiava meu endereço na ficha do computador. Eu, até então distraída passeando os olhos pelas inúmeras prateleiras atoladas de livros, me voltei para ela, sem saber direito o que dizer. O tão simpático "estudante", que me serviu durante a vida inteira, já não pode mais ser usado. É um choque. Pensei em "procrastinadora profissional", mas vai que ela implica e pede registro do sindicato ou coisa assim. "Especialista em cultura inútil" também não é uma boa definição, ainda mais porque eu sou bem mais inútil do que especialista. Suspirei, encarando o olhar impaciente da mulher, a essa altura já louca para voltar à conversa telefônica, e respondi: "jornalista". Ela, surpreendentemente, me deu um sorrisinho e voltou mais uma vez sua atenção para a amiga com quem falava ao telefone. Vencida a etapa do cadastro, saí da biblioteca com dois Cesare Pavese ("O belo verão" e "As mulheres sós"... mas só porque o "O ofício de viver" estava emprestado) e um Dino Buzzati ("O deserto dos tártaros") em mãos, além do Italo Calvino (ehehehe... sem acento, Camie!) que já estava lendo antes ("Se um viajante numa noite de inverno"). Ainda tive que ouvir um: "italianos, hein?" da bibliotecária, que não tinha largado do telefone na hora em que eu fui embora. Acenei com a cabeça em um indefinido "pois é" e saí, retomando o caminho para casa. Mas aquele "jornalista" ficou ecoando na minha cabeça durante o resto do dia.
assim falou Tatoca às 3:18 PM Quarta-feira, Janeiro 05, 2005 Depois que 2004 virou história Peço desculpa aos poucos, porém fiéis, leitores desse blog pelo sumiço assim sem mais nem menos. Faltou tempo, vontade e inspiração para postar esses dias. O Cony costuma dizer que ninguém escreve quando está feliz. É bem verdade que eu estou passando por uma fase meio zen nos últimos tempos, mas não é para tanto. Prefiro ficar com a definição do Macunaíma: Ai! Que preguiça! A virada do ano foi muito legal, novamente em família e, como sempre, um circo. Passei o ano vestida de preto. Não, nada de macumba e muito menos rebeldia sem causa (já tive por essa fase aos 15 anos, quando quis passar o ano novo com a minha camiseta do Nirvana... pobre mamãe). Para aqueles que franziam a testa, eu tinha uma explicação bem prática: me visto durante quase todos os outros 364 dias de preto, para que ser hipócrita só por causa dessa ocasião? Enfim, 2004 acabou, 2005 começou e lá vamos nós de novo. Daqui a 12 meses tem mais.
Para começar bem o ano, o porta-retrato do Diogo, o mascote do meu pai, muito lembrado na virada do ano da família (quem não entendeu, veja o post do dia 18 de novembro aqui)
assim falou Tatoca às 10:31 PM Terça-feira, Dezembro 28, 2004 E então foi natal... ... e minha casa virou aquele circo de sempre. Foram quatro dias daquela deliciosa confusão. Começou na sexta, no aniversário do meu pai, e terminou ontem. Só para constar: não agüento mais ver comida! Às vezes acho até meio boba essa alegria infantil que sinto quando vejo a família toda reunida. Mas é algo que realmente me faz bem... difícil explicar para quem está de fora. Decidi que 2004 não terá balanços. E nem "wishlist" para 2005. Como já cantava o grande Nico Fidenco, "che sará della mia vita chi lo sa/ so far tutto o forse niente/ ma domani si vedrà/ e sará, sará quel che sará". (minha tradução tosca: o que será da minha vida - quem sabe/ farei tudo ou talvez nada/ mas amanhã se verá/ e será, será aquilo que será) E já no clima do início de 2005, deixo aqui um frase do escritor italiano Cesare Pavese, enviada para mim por um amigo muito querido: "A única alegria do mundo é começar. É bonito viver, porque viver é começar sempre, a cada instante". Desejo um 2005 de muitos bons começos para todos!
assim falou Tatoca às 2:38 PM Segunda-feira, Dezembro 20, 2004 Pinchejo e Pincheja Beach Boys tocando no rádio do Tatoca-móvel (que na verdade é o mammy-móvel, mas beleza), lá estava eu, indo para o Pão de Açúcar comprar uns presentinhos para a cachorra do Dú, a Babi. Uma das minhas grandes frustrações é nunca ter tido um cachorro. Minha mãe nunca deixou, mesmo eu insistindo desde que me entendo por gente. Todos os anos, no meu aniversário, sempre pedia duas coisas: um cachorrinho e uma irmã gêmea. A gêmea eu acabei encontrando alguns anos mais tarde, mas o cachorro não teve jeito. Por isso, "adotei" a Babi, e vivo levando-a para passear e a enchendo de presentinhos, o que causa um certo ciúmes, ainda que velado, no meu namorado. Pois bem, lá estava eu dirigindo para o mercado quando, parada num farol, reparei numa faixa gigante pendurada em um poste que se estendia de uma ponta a outra da rua. Contornados por corações, liam-se os dizeres: "Pinchejo, Palabéns!! Te amo muito. Pincheja". Minha primeira reação foi rir. Imaginei o pinchejo levantando para pegar o jornal, de chinelo, meia e pijama, e dando de cara com o presentinho da sua pincheja. Ainda meio pasmo, ficaria observando a prova de amor e era capaz até do porteiro comentar: "só se fala disso". Pinchejo suaria frio, com um sorrisinho sem graça no rosto, tentando disfarçar. Se a rua tivesse uma vizinha gorda e patusca como a do Nelson Rodrigues, o pinchejo já saberia estar perdido. Seria apontado pela vizinhança, alvo de risadinhas, a intimidade exposta, ficaria eternizado como pinchejo, talvez tivesse até que mudar de cidade. "Todas as cartas de amor são ridículas", me repreendeu mentalmente Fernando Pessoa, na figura de Álvaro de Campos. Está certo, o amor tem o dom de deixar as pessoas sem noção do ridículo. Mas não precisa apelar, não é mesmo? O estômago alheio agradece. O farol abriu e tive que voltar a prestar atenção no trânsito. Ainda tive tempo para pensar: como reagiria Fernando Pessoa ao ouvir da boca amada um "Palabéns, pinchejo, seu poema estava lindo?". PS: Finalmente assisti a "Os Sonhadores". Oh, Theo! Até deixava ele me chamar de "pincheja". Com aquele sotaque francês ia ficar uma graça.
assim falou Tatoca às 4:36 PM Sábado, Dezembro 18, 2004 Greve
O site do Repubblica informa que os seus jornalistas proclamaram uma greve de dois dias, durante os quais o site do jornal não será atualizado, com exceção da coluna "news". Pesquisei, mas não encontrei o motivo da greve. Não sei se ela tem relação com a recente greve geral do país, que parou para protestar contra as estripulias do Berlusconi. Mas ver isso me fez pensar: que redação teria coragem de entrar em greve no Brasil hoje em dia? Não precisei para pensar muito para concluir que nem a da Caros Amigos. Em maio de 1979, os jornalistas de São Paulo resolveram entrar em greve. As reivindicações principais eram de 25% de aumento e imunidade para os membros dos Conselhos Consultivos de Representantes de Redação - mas o discurso geral era de que a profissão estava sendo "desmoralizada" pelas empresas. As redações paulistas ficaram praticamente vazias por seis dias. Até que a greve foi considerada ilegal, e o sindicato resolveu que o melhor a fazer era voltar ao trabalho. Como resultado, no mês seguinte, mais de 200 jornalistas foram demitidos. No pouco contato que tive com os jornalistas da "velha geração", pude perceber o orgulho que eles têm de ter participado dessa greve, do piquete na Folha de S.Paulo, da tentativa de barrar caminhões com jornais feitos pelos "fura-greves". Uma nostalgia quase sempre seguida de lamentações sobre a situação da classe atualmente, como "jornalista não enfrenta mais patrão" e o sindicato é uma palhaçada. "São péssimos publishers", diria Rosângela Petta. E eu me pergunto se uma greve de jornalistas tem sentido hoje em dia. Não que o jornalismo não mereça, mas uma equipe reduzidíssima e um computador são suficientes para fechar um jornal em caso de emergência. A adesão teria que ser praticamente total para surtir algum efeito. E só de pensar nisso já vejo minha mãe (sim, já comentei o assunto com ela) dizendo que os empregos são tão poucos e tão concorridos que quem tem quer mais é garantir o seu. Estariam os jornalistas fadados ao "peleguismo"? (Pausa para risadas. Lembrei do texto do Paulo Francis chamando o Caio Tulio Costa de "bedel da Folha" e "lagartixa pré-histórica"... huahuahuaua). Hoje eu me pergunto como os jornalistas existiam sem o Google e a internet, como deveria ser tenebroso elaborar uma matéria sem esses recursos e considero a vantagem que temos sobre as gerações anteriores. Aí me lembro do Roberto Freire me perguntando como os jornalistas hoje podem trabalhar sem poder ousar, como era na época dele, sem poder criar e se apaixonar, em condições de emprego totalmente absurdas, com esse "jornalismo fraco" de hoje. Pois é.
assim falou Tatoca às 1:09 AM Quinta-feira, Dezembro 16, 2004 Minha banca off-Broadway
Minha adrenalina atingiu picos inimagináveis ontem à noite. Cheguei na faculdade a mil. A banca da Camie já tinha começado. Fui ver, repassando mentalmente o que iria dizer na minha apresentação. A minha amiga mahari demonstrou uma desenvoltura invejável diante da banca, falou com uma naturalidade espantosa. As considerações da banca da Camie tiveram início. A primeira professora parecia ter fumado todos antes de entrar na sala. A banca continuou. Fiquei tentada a desconvidar a Petta depois que a vi em ação, mas já era tarde demais. A Camie sobreviveu bravamente à banca. Estava chegando a minha hora. Desespero total. Fui esperar meus avaliadores no hall do elevador, pulando como uma retardada para ver se me acalmava. Chegou o primeiro, quase ao mesmo tempo do meu orientador. Depois, vieram meus pais e minha irmã. Algum stress com o segundo avaliador, que estava barrado na recepção porque não tinha documentos. Nada que um telefonema da Petta para a recepção não resolvesse. Ok, todos estavam lá. Havia chegado a hora. A porta fechou, a banca assumiu seu lugar, e lá fui eu para a frente da sala. Respirei fundo. O circo estava armado. Meu coração batia tão rápido que achei que fosse ecoar pela sala. Comecei a falar. Péssimo, péssimo. Gaguejava, trocava palavras, tremia. Continuei em frente, enquanto a voz na minha cabeça dizia: "tsc, tsc... olha que papel ridículo você está fazendo". Falava olhando para um dos caras da banca e tinha a absoluta certeza de que ele estava fazendo caretas para mim. Isso me desconcentrou ainda mais. Terminei a minha apresentação logo, sabendo que o pior estava por vir. Inquisidor número um. Ele começou a falar. Ao mesmo tempo, um tuiiiiiiiim incrível estalou no meu ouvido. Via a boca do cara se movendo, mas pouco distinguia do que ele falava. "Obrigado, parabéns, blablabla, monografia, blablabla, linguagem, blablabla, o tema, blablabla, a narrativa, blablabla. É impressão minha ou ele me chamou de Tati? Nossa, que gentil. A voz na minha cabeça entrou em ação: "presta atenção, imbecil!" Tomada por uma força tirada de sabe-se lá onde, eu anotava tudo, pensando no que dizer, mesmo que uma parte do meu cérebro só conseguisse pensar: ãhn??. Hora da minha réplica. Falei, falei, falei. Não me pergunte o que disse. O cara me pareceu satisfeito. Estava sorrindo. Round 1 terminado. Segundo inquisidor. Pausa para agradecer o Flosi. Começou. Algo sobre o tema ser off-Broadway e sobre a seriedade do trabalho. Meu cérebro travou de novo. Anotava a tudo mecanicamente. "Blablabla, surpreendente, blablabla, vamos salvar o mundo, blablabla, alguém de mais de trinta anos, blablabla, experimentação no texto, blablabla, análise de conteúdo". Ao ouvir essa expressão, a voz na minha mente gritou desesperada: "Bordieu nããããããooooooooo!!!" Mais e mais sugestões. Minha voz interior desesperava-se: "esse cara quer que eu passe o resto da vida fazendo trabalhos sobre a Caros Amigos?". De volta às observações. Opa, ele parou de falar. Minha vez. Tenho que começar por algum lugar. Ai, o que é mesmo uma oração subordinada? Putz, esqueci o que eu ia falar. Saiu um tenebroso: "eu também sou off-Broadway". Risadinhas. Pelo menos ganhei tempo. Vamos lá. Falei, falei, falei, falei. Mandei para longe a idéia de fazer análise de conteúdo. "Não tenho bagagem cultural, quem sabe no futuro". Falei mais. Continuava achando que o cara estava fazendo caretas. Não sei de onde saiu tudo que eu disse. Mas o cara pareceu contente. Round 2 terminado. Agora vinha ela. A mais temida. Rosangela Petta, primeira e única. Respirei fundo. Faltava pouco. Ela começou a falar. Ok, também não gostei disso, mas foi sugestão da comissão de projetos na primeira avaliação, nem vem. Mais e mais e mais coisas. "mercardo perverso, blablabla, mas a Veja, blablabla, pessoal envolvido, blablabla, posicionamento crítico, blablabla, entrevista por email". Anotava tudo enquanto minha voz interior gentilmente sentenciava: "ih, já era!". A mulher não parava mais. Finalmente ela acabou! Minha vez. Surtei totalemente. Comecei a falar, corrigir, rebater, argumentar. Vi a mulher arregalando os olhos. Continuei falando. Minha voz interior ainda mais desesperada: "cala a boca, sua imbecil, olha com quem você está brigando, ela vai comer seu fígado, não piora as coisas". Parei de falar sentindo meu rosto arder. Ela ainda replicou, eu acrescentei uma coisa ou outra, ela finalizou. Estava terminado. A banca anunciou que sairia para decidir a nota. Saí da frente da sala e fui falar com o pessoal que estava assistindo. A galera me parava para dar os parabéns. Ainda estava meio zonza. Cheguei até minha mãe, que desfiou uma série de "elogios" à minha avaliadora. Beijos no Dú. Conversas com o pessoal. E eles voltaram. Assumi meu posto lá na frente. Inquisidor número um anunciaria a nota. Momentos de tensão. Considerações pelo trabalho. "Pelo texto, pela apuração, pelo diálogo com a banca". Minha voz interior ainda conseguiu fazer gracinha: "diálogo com a banca? Esse foi presente da Petta". Mais enrolação. Pelamordedeus, fala logo! Até que... "sua nota é nove. Parabéns!". Palmas. Alívio. Alívio. Alívio. O peso do mundo saiu dos meus ombros. Abraços, beijos, sorrisos. Agradeci a todo mundo da banca. A Petta me deu um dos abraços mais apertados da noite. "Meus parabéns!", ela disse, com uma alegria genuína. Deixou comigo o exemplar com as anotações dela e pegou o meu, não sem antes pedir uma dedicatória. Mais abraços e beijos. Alegria. Tinha acabado. A comemoração se estendeu madrugada adentro. O número da minha comanda foi sorteado para ganhar um brinde do bar em que a gente estava. Justo eu, que nunca ganhei nem bingo ético! Cheguei em casa às três e meia da manhã. Feliz. Sei que, se tivesse preferido uma banca mais benevolente, minha nota poderia ter sido melhor. Foi uma escolha consciente - e por isso estava tão nervosa. Sei que minha banca foi de pôr medo. Mas fiquei muito feliz com o resultado. Não foi o caminho mais seguro, poderia ter dado um tiro no meu próprio pezinho, mas acabou tudo bem. Sei que tive elogios concretos que representam muito vindos das pessoas que vieram e muitas observações pertinentes e relevantes a serem consideradas. O saldo não poderia ser mais positivo. Estou verdadeiramente realizada. Acabo esse post gigantesco agradecendo a todo mundo que aturou meus surtos e me apoiou nessa epopéia. Não tenho como dizer o quanto fiquei contente em ver tantos amigos torcendo por mim. Muito obrigada por acreditarem e por me fazerem acreditar. No fundo, é isso o que fica. E viva o off-Broadway.
assim falou Tatoca às 3:29 PM Quarta-feira, Dezembro 15, 2004 Desesperada, eu? Imagina... É HOJE!! É HOJE!! É HOJE!! (sorry, mas o meu "estado de nelvo" não me permite escrever nada além disso. Alguém leva chocolate e caju amigo para minha banca, por favor!)
assim falou Tatoca às 2:15 PM Terça-feira, Dezembro 14, 2004 Se segura que essa noite eu não dormi... Não dormi essa noite pensando na minha apresentação do projeto. Milhões de idéias, nenhuma aproveitável. Acima de tudo, medo. Muito. Comecei a reler o livro, mas desisti. Parava a cada parágrafo imaginando o que seria apontado de errado. Só conseguia me flagelar: "e se eu não tivesse deixado tudo para a última hora?", "e se eu tivesse insistido mais com as entrevistas que eu não consegui?", "e se eu tivesse levado tudo mais a sério?". As simulações da banca na minha mente também não foram nada agradáveis. Ora me via chorando copiosamente na primeira crítica e admitindo que estava tudo uma droga, ora me via pulando no pescoço do primeiro que viesse me falar qualquer coisa. Imaginei de tudo. Crise de amnésia na hora da apresentação, ficar muda diante dos avaliadores, derrubar a garrafa d'água em cima de mim mesma, tropeçar, cair, bater a cabeça, engasgar, chorar, ter crise de riso... não faço a menor idéia de como irei reagir. Por que diabos eu quis fazer tudo sozinha??? Comecei a procurar os pontos positivos do projeto para me acalmar. As entrevistas com certeza foram um aprendizado insuperável. Não canso de dizer o quanto foram impactantes as conversas com o Roberto Freire, tanto on quanto off do trabalho. Assim como as entrevistas com todos os outros jornalistas e envolvidos na história. E também é intraduzível o orgulho de ver um dos fundadores da Caros Amigos com os olhos cheios de lágrimas ao terminar de ler o meu livro, dizendo que não mudaria uma vírgula. Esses são méritos que ninguém me tira. Esses pensamentos me acalmaram um pouco, mas não o suficiente para conseguir formular algo apresentável. E aí eu trombei com esse trecho de um texto que eu escrevi no final de 2002, aqui mesmo neste blog, sobre o pic, a monografia que originou o meu trabalho: "Foi fantástica a transição da revista do mundo das idéias para o mundo real dentro da minha mente. Caros Amigos tomou uma forma completamente diferenciada para mim. De repente, tudo era tão real. Não era apenas uma revista de 46 páginas que via na minha frente. Enxergava as paixões, as angústias, os sonhos por trás daquele projeto. Mais ainda: sabia que tudo aquilo era real, como as coisas tinham se configurado, conhecia as pessoas responsáveis por fazer aquela realidade. Caros Amigos deixou o plano das idéias para mim - não é mais só aquela revista de textos que chega em casa toda 2ª semana do mês - e passou a ser uma realidade, algo concreto, e até mais apaixonante do que antes. Quando eu comecei a fazer meu projeto, não imaginava a história que existia na Caros Amigos. Tudo o que eu conhecia era um certo professor a quem admirava muito e que escrevia para a revista. Nunca teria feito o projeto se não tivesse tido aula com o Arbex. Só depois de iniciada a apuração me dei conta de como a história da revista era infinitamente mais interessante do que a revista em si. É uma história extremamente passional, encantadora, contagiante. E é por causa dessa história que, para o bem e para o mal, estou nesse desespero. Meu projeto não é só uma obrigação que cumpri para terminar a minha faculdade. É o resultado de mais de dois anos ouvindo, convivendo, vasculhando e retratando paixões e emoções alheias, fazendo delas o meu quebra-cabeça particular, compondo o que hoje é concreto: meu livro-reportagem. Estou absolutamente desesperada pela banca de amanhã. Tenho certeza que não vou dormir essa noite e que ainda vou ver mentalmente a cabeça da Petta explodindo mais umas milhões de vezes até às 21 horas de amanhã. Mas nenhuma nota pode superar a minha satisfação pessoal de ter realizado esse trabalho. PS: no fundo isso é uma tentativa desesperada de não morrer de ansiedade. Só para lembrar: É AMANHÃ!
assim falou Tatoca às 4:44 PM Segunda-feira, Dezembro 13, 2004 Tapuias Jocistas Nada melhor para esquecer um pouco a tensão pré-apresentação e me despedir dos meus colegas jocistas do que um final de semana repleto de churrasco e bebida. Apesar de boa parte da classe não ter ido, foi muito divertido. Acho que nunca vi tanta carne junta em toda minha vida. Claro, o destaque insuperável foi para a "lingüiça-consolo" levada pela Kari. Espero que alguém tenha tirado fotos e registrado o fato para a posterioridade. Foi a comemoração do "ano novo" jocista. Com direito a contagem regressiva à meia noite, banho de champanhe (sidra, melhor dizendo) e roupas brancas no caso dos mais entusiastas. Para iniciar o nosso novo ano, todo mundo foi parar na piscina de roupa e tudo ou, em alguns casos, sem absolutamente nada. Inclusive essa que vos escreve, de calça jeans, meia e camiseta (preciso falar que eu estava para lá de Bagdá?). Só mesmo misturando cerveja, caipirinha, catuaba, sidra e, principalmente, caju amigo para cantar uma música do Bon Jovi de cabo a rabo sem errar a letra e admitir publicamente que eu chorei como uma desesperada porque minha mãe não me deixou ir no show dele no Brasil quando eu tinha 12 anos de idade. O primeiro dia do churrasco só acabou na madrugada de sábado para domingo. Fui dormir com o Dú ainda meio anestesiada em um colchão da espessura de uma folha de papel sulfite. Meu namorado capotou e eu, com dificuldades para dormir porque o mundo não parava de girar, fiquei tentando compor mentalmente minha apresentação do projeto. Não lembro direito das minhas brilhantes idéias naquelas condições, mas uma frase ficou muito nítida na minha cabeça: "ressonante é um ótimo nome para um rinoceronte." Vou tentar aproveitar a idéia, apesar do meu trabalho não falar sobre rinocerontes. No dia seguinte... acordei toda dolorida por causa do colchão. E descobri que o caju amigo não é tão amigo assim se ingerido em quantidades consideráveis e depois de passada a euforia. Mas, apesar de uma dor de cabeça chatinha, nada de ressaca. Por via das dúvidas, fiquei o resto do dia todo na coca light. O churrasco no domingo foi mais tranqüilo, todo mundo meio "bodeado". Mas não por isso menos divertido. Voltei para Sampa ao som de Abba com a Kari, que demonstrou uma agilidade impressionante na estrada. Ainda fico um pouco chocada ao perceber que realmente acabei a faculdade. É estranho. E já sinto saudades antecipadas de um monte de coisas. Só para constar: apesar de todo o meu nervoso, me saí bem na prova de italiano do sábado. Ainda não tenho a nota oficialmente, mas a professora deu uma olhada na minha prova e me disse para ficar tranqüila, que eu com certeza vou conseguir o certificado, que estava muito bom. Aproveito também para agradecer o Durval pela lembrança! Obrigada mesmo!! PS: DOIS DIAS!!!!!
assim falou Tatoca às 3:16 PM Sexta-feira, Dezembro 10, 2004 Só eu Além da onipresente apresentação do projeto, estou morrendo de medo da prova de italiano que vou fazer amanhã. Meu namorado fica zoando da minha cara, falando que é exagero, que eu sou a "aluna-mais-cdf-da-história-do-curso-de-italiano". Sei que não é para tanto, mas simplesmente não consigo não me estressar. Como diria o Felipe (da Mafalda, of course), por que justo eu tenho que ser do jeito que eu sou? PS: continuando o terrorismo... 5 days to go
assim falou Tatoca às 5:39 PM Quinta-feira, Dezembro 09, 2004 Desencontros Avenida Paulista, pouco mais de 21 horas, proximidades do metrô brigadeiro. Eu o vi. Ele me viu. Eu levantei a sobrancelha. Ele tirou os fones do discman do ouvido. [Ele]: Oi! [Eu]: Oi! [Ele]: E aí... só na correria do final do ano? [Eu]: É... [Ele]: Você termina a faculdade esse ano, não é? [Eu]: Sim. Aliás, apresento meu TCC semana que vem. E você, como vai? [Ele]: Bem, tudo bem, na mesma. Boa sorte para você. E o Edu? [Eu]: Tá bem! (silêncio constrangedor. Esqueci o nome da namorada dele) [Ele]: Bom, então tá. Você sumiu! Vê se me liga! [Eu]: Você também. Seguimos por sentidos opostos na avenida. Não consigo deixar de pensar como certas coisas simplesmente não fazem sentido fora do seu espaço e tempo. Estão inseridas num contexto próprio de uma época. Ele foi meu namorado por quase um ano. Uma daquelas paixões tão fulminantes da adolescência. E, hoje, somos tão estranhos um ao outro e tão diferentes quanto quaisquer outros dois transeuntes. Nossos mundos se tornaram distantes. Simples assim. É, acho que não dá para esperar mais do que isso. PS: 6 dias. Ai, ai, ai...
assim falou Tatoca às 3:12 PM Quarta-feira, Dezembro 08, 2004 Querido diário... Ontem eu montei minha primeira árvore de natal! Ah, mas que alegria. Está parecendo uma alegoria de carnaval, com seus fru-frus dourados, luzinhas piscantes, bolas coloridas, laços amarelos... Faltou o papai noel de chocolate, que minha mãe se recusou a comprar, com a justificativa de que ele não duraria nem o tempo de pendurar na árvore.
Eu gosto do natal, não tanto pela data em si, muito mais porque é aniversário do meu pai. Por isso, a festa é sempre em casa. Vai a família toda, o lugar fica parecendo um hospício (como de praxe), tem comida até não poder mais e meu pai fica numa alegria que só. É uma delícia. Quando eu era criança, gostava ainda mais, pelos presentes, é claro. Mas sempre faltava a árvore de natal. Meu pai se recusava a ter enfeites natalinos em casa porque, para ele, a importância da data estava no seu aniversário. Não queria ser negligenciado por outras comemorações no dia dele. E foi assim até este ano. Eu e minha irmã estávamos fazendo pressão desde o ano passado por uma árvore de natal (e eu encampava sozinha a campanha pelos enfeites dos papais noéis de chocolate... quem sabe no ano que vem). Minha mãe também ajudava, já ela própria também nunca tinha tido árvore de natal. E eis que ontem meu pai cedeu e chegou em casa com a árvore, os enfeites, as luzinhas e tudo mais que a gente tem direito. A incumbência de montar a árvore ficou com as três mulheres da casa, enquanto meu pai, do sofá, dava as instruções. Gritinhos histéricos e palmas de alegria foram ouvidos durante todo o processo, além de comentários como "mas com o papai noel de chocolate ia ficar melhor ainda". Acabamos a tarefa às onze e meia da noite. Todo mundo se reuniu ao redor do venerado objeto para acender as luzinhas. A cerimônia de inauguração atingiu seu ápice assim que a árvore piscou em verde, vermelho, azul e amarelo. O clã finalmente tem uma árvore de natal. Podemos todos dormir tranqüilos. PS: uma semana para o juízo final. Ai, que medo.
assim falou Tatoca às 3:59 PM Sexta-feira, Dezembro 03, 2004 Amado mestre "Ética é aquilo que nós queremos que os outros não façam" Voltaire (tirado da coluna do Conyyyyy da "Folha" de hoje). Uma singela homenagem ao fim do bingo ético.
assim falou Tatoca às 5:39 PM Quarta-feira, Dezembro 01, 2004 Até tu, mammy?
Aniversário da minha irmã mais nova. Família toda reunida. Meu priminho correndo de um lado para o outro com a energia que apenas uma criança de um ano e meio consegue ter. Mãe, avó e tias, saudosas da época em que suas crias eram graciosos bebês, lembravam as estripulias de antigamente. Eu estava só ouvindo, os 150.000 caracteres rodando na minha cabeça. Até que minha mamãe começou a falar... - A Tati era a menina dos porquês. Queria perguntar sobre tudo. Era um "mas por que..." atrás do outro. Até a hora em que eu enchia o saco, virara brava para ela e falava: "Porque sim, sim, sim". Aí ela arregalava os olhinhos, colocava as mãozinhas na cintura e perguntava: "Mas, mamãe, e por que xim, xim, xim?". Risadas gerais, acompanhadas de olhares de soslaio para a minha constrangida pessoa, com caras de "não mudou nada". O Dú, rachando o bico, virou para mim e sussurrou no meu ouvido: "Mafaldinha". Tudo indica que um certo amigo metrossexual está abrindo escola.
assim falou Tatoca às 2:07 PM Terça-feira, Novembro 30, 2004 Alívio Mentiria se dissesse que não estou morrendo de medo da banca. Estou. Demais. Já cheguei até a sonhar com isso, um sonho totalmente sem pé nem cabeça, em que a sala 10 da caspirilo se transformava na cozinha da minha casa e um distinto jornalista da minha banca estava nu, sentado em um trono dourado, apenas com um colar e um cocar de índios, discorrendo sobre imparcialidade jornalística usando como exemplo um índio que roubou o primeiro pedaço do seu bolo de chocolate. (minha mente me assusta). Mas é muito boa a sensação de alívio de já ter terminado o projeto e de ter uma noite tranqüila de sono após tantas madrugadas mal-dormidas. Me dá um certo conforto também saber que passarei por essa aflição ao lado de uma queridíssima amiga, que irá apresentar seu projeto no mesmo dia, na mesma sala, duas horas antes de mim. Fico aqui, sentindo esse sol de quase dezembro avermelhar minhas bochechas, a pensar o que será de mim com a banca que escolhi. Meu coração aperta só de imaginar. Longos 15 dias pela frente.
assim falou Tatoca às 4:42 PM Segunda-feira, Novembro 29, 2004 TCC, eu te amooooo!!! ![]() Gostou?? Eu que fiz!!!!!! :P Acabei o meu projeto. Modéstia às favas, ficou lindo. Em meio a uma caótica festa de aniversário para a minha irmã ontem, lá estava eu quebrando a cabeça para espremer os caracteres que faltavam. Surreal ver meu primo de um ano e meio pulando no meio das minhas Caros Amigos e me puxando, dizendo: "vem bincá, piminha!". Ou minha avó pedindo para eu explicar o que é que tinha aquela revista de diferente (meu pai explicou sucintamente: "revista de comunista"). Mas todo mundo me desejou boa sorte, com direito a abraços apertados e beijos estalados, mesmo sem ter a menor idéia do que era aquele trabalho que eu tanto fazia. O bolo de dois andares da minha irmã simplesmente evaporou após o "parabéns". Não tinha brigadeiro, apesar de todos os meus protestos. Quanto ao churrasco, a salada e a maionese estavam ótimas. Não consegui chegar perto da carne, os familiares esfomeados impediam a passagem. E eu só respirava caracteres. O Dú, só para ser mais perfeito do que já é, agüentou firme e forte todos os meus surtos de "eu-não-vou-conseguir" e "tá-tudo-uma-droga". Meu amigo Cintra, fofo dos fofos, foi até a minha casa às 10 da noite para me dar a cópia que ele tinha revisado. Não que eu mereça, é claro. Dormi duas horas de ontem para hoje, mas estou absolutamente elétrica. Acabei. Meu orientador me escreveu dizendo que está "orgulhoso". Não sinto sono, nem fome, nem cansaço. Estou genuinamente feliz. Aviso aos navegantes que o juízo final já tem data e hora. Dia 15 de dezembro, às 21 horas. Espero não ficar presa nos eficientes elevadores da Caspirilo. Por favor, torçam por mim. E levem chocolates.
assim falou Tatoca às 4:25 PM |